25.4.09

Marcello Dantas

Divido aqui a entrevista que fiz com Marcello Dantas, o homem que está por trás do Museu da Língua Portuguesa e tantos outros pelo mundo, sobre a ligação dos museus com a tecnologia. Vale a pena conhecer esse novo jeito de fazer história.


Um novo olhar sobre a história

Museus e exposições ganham ares de modernidade com abordagem tecnológica

Maisa Infante

O carioca Marcello Dantas, 42, diz que todo artista é um mágico. Ele próprio parece não estar muito longe disso. Entusiasta das novas tecnologias, consegue transformar temas espinhosos, como a Língua Portuguesa, em algo divertido e curioso. Quando deixou o Instituto Rio Branco (onde estudava para ser diplomata) e foi estudar História da Arte, já sabia que o seu caminho profissional seria o de unir arte e tecnologia. Formou-se em Cinema e Televisão pela New York University, fez pós-graduação em telecomunicações e se tornou um nome importante por trás da renovação de museus e exposições no Brasil e no mundo. A exposição Bossa na Oca, em cartaz em São Paulo, é um bom exemplo de como a tecnologia pode ser usada a favor da arte. Projeções holográficas, por exemplo, permitem um encontro virtual entre Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, Stan Getz e Nara Leão.
Brincando, Marcello diz que se tornou um “especialista em encher museus”. O segredo, segundo ele, é usar a tecnologia de forma amigável, como um elemento de aproximação entre o público e o conteúdo que se quer mostrar. Conteúdo esse que é cada vez mais amplo, já que a tecnologia consegue colocar o patrimônio imaterial onde antes só havia o material. A história da TV e da escrita, o tempo e a própria Bossa Nova são alguns dos temas que já motivaram exposições. O Museu da Arte do Futebol, nos Emirados Árabes, projeto em que ele também está envolvido, é outra prova de que os acervos museológicos não são mais feitos somente de peças raras e antigas.
Ao som de João Gilberto e João Donato, olhando uma projeção do mar (que ele filmou de dentro de um helicóptero para a exposição na Oca), Marcello falou um pouco sobre arte e tecnologia.

Você acha que toda manifestação artística pode se comunicar com a tecnologia?

Desde Leonardo da Vinci ela se comunica. Aliás, desde a época das cavernas há essa relação. No momento em que os homens pré-históricos começaram a fazer pesquisa com elementos minerais e químicos para poder pintar nas pedras, estavam fazendo tecnologia. Quando Michelângelo fez um Domo, ele estava desenvolvendo arquitetura, que puxava pela tecnologia para chegar em um novo estágio. Eu acho que a concepção da perspectiva do século 15, por exemplo, é muito mais sofisticada do que as soluções que a gente tem hoje. A Última Ceia (de Leonardo da Vinci) tem uma enorme tecnologia por trás. Hoje temos as máquinas para fazer coisas parecidas, ajustar e compensar. Mas alguém teve que fazer isso no papel um dia. O que acontece é que a tecnologia assusta as pessoas quando ela não é amigável. Mas quando ela é amigável, todo mundo gosta.

E quando ela não é amigável?
Quando as pessoas usam botões demais, interface demais, ou seja, põe a tecnologia no meio do caminho. Não se pode colocar a tecnologia entre você e o conteúdo. Tem que estar em baixo, em volta, nunca entre. O olhar, o toque e a presença física não podem ser substituídos. A tecnologia não pode se impor como interface mais forte do que o conteúdo. Ela tem que ser uma interface de aproximação e de facilitação. E os museus no Brasil, durante muito tempo, foram conservadores. Talvez porque estivessem falidos. Há mais ou menos 10 anos, começou no mundo inteiro um movimento para levantar os museus. Toda sociedade que passa um longo período, ou de retração econômica ou sem liberdade de expressão, quando vive um momento de liberdade e crescimento econômico, a primeira coisa que faz é criar museus, porque eles são as catedrais possíveis do nosso tempo. É o que a gente pode fazer como construção simbólica para dizer “nossa identidade está aqui. Nosso tempo está marcado com essa coisa”. A Espanha fez 100 museus em 20 anos. A China está fazendo mil museus. E o Brasil também está numa pujança. E aí, nesse momento, a gente chegou com uma nova linguagem, que fez as pessoas pararem de associar a idéia de museu com lugar de coisa velha. Quando você chega com uma capacidade de explicar as coisas de um jeito que as pessoas entendem, elas respondem imediatamente.

E hoje o patrimônio imaterial também é “peça de museu”...

O colecionismo do século 19 já não é mais o mote pra se construir museus. Hoje, os museus são caixas de interpretação. Você pega um conteúdo qualquer, imaterial, e pode fazer um museu. Basta dar valor para aquilo. Estamos fazendo agora o Museu do Metal, em Belo Horizonte. Em Washington existe o Museu da Imprensa, que é maravilhoso. Em Turin temos o Museu do Cinema.

A tecnologia pode deixar atraentes assuntos áridos e chatos?

Claro. Tecnologia é linguagem. O mais importante do Museu da Língua Portuguesa não é a tecnologia, é a linguagem, o jeito como você conta uma história e faz com que as pessoas possam se identificar com o que vêem. Quem gosta de futebol, vai encontrar futebol lá. Quem gosta de música, encontra música. Na verdade você faz museus para as pessoas se identificarem. A tecnologia é um suporte para fazermos isso.

Além de criar novos museus, essa nova linguagem pode ajudar os museus que já existem, que estão em decadência?
Claro. A melhor coisa que você pode fazer pelos museus que já existem é dar a eles uma nova leitura interpretativa. Os acervos são bons e têm um potencial enorme.

Você sempre diz que a maior parte das visitas de um museu é de crianças. Isso colabora para que a tecnologia seja bem-vinda?
A vocação natural dos museus é ser uma caixa de inspiração e de educação. Quando você entende o tamanho da visitação infantil e juvenil, você entende que precisa falar a língua do jovem em primeiro lugar. Primeiro porque eles são maioria e, segundo, porque o que faz sentido em um museu é criar o hábito e criar vínculos com essas pessoas. Tem ainda o fato de que dentro de cada adulto tem uma criança. Então você não erra. Agora, se você erra o alvo dessas crianças e jovens, você errou o alvo de todo mundo.

E os mais velhos? Tem resistência à tecnologia?
Não. Eu estou cansando de ver velhos que estão adorando, brincando, se jogando. Não acho que eles sejam excluídos. Inclusive, os mais velhos se aproximam cada vez mais dos mais jovens quanto mais velhos eles ficam. Hoje em dia, quem é que não vive uma vida tecnológica? Até os índios estão conectados. O uso de tecnologia digital é cotidiano. E não é de hoje. A própria Bossa Nova é um fenômeno áudio-visual. As evidências mais emocionantes que temos não são as capas de disco nem os copos de uísque. São as imagens e os sons. Como eu conto a história da Bossa Nova sem isso? Como é que eu faço um museu da língua viva, não da língua fechada e travada em um livro há 500 anos, mas da língua que está nas ruas, sem usar a televisão, um recurso fundamental com o qual as pessoas se alfabetizam hoje? São os recursos da nossa sociedade. Ir contra isso é de uma ingenuidade brutal. É como dizer que somos contra a água encanada. Estamos no século 21 e a tecnologia é linguagem do século 21.

Pessoas avessas às tecnologias também podem consumir essas exposições e museus?
Qualquer pessoa pode. Nessa exposição de Bossa Nova, por exemplo, não tem truque. Inclusive se aperta muito pouco botão por aqui. A tecnologia está presente para te acomodar, te receber. É bem invisível. Para fazer um trabalho desse tamanho você não imagina a loucura de tecnologia que tem. Só que você nem vê isso. Quem não gosta de tecnologia que desligue o primeiro ar condicionado, não atenda o próximo telefonema e não faça um exame de sangue.

A costura

Naquela manhã de sexta-feira lá fui para o dentista para fazer a retirada de uma glândula salivar. Um procedimento simples, nas palavras do dentista. "A gente faz um corte, retira a glândula e costura". O problema é que quando falam em costura eu logo imagino aquelas costureiras de meia idade, que andam com a fita métrica pendurada no pescoço e um monte de alfintes em um avental. Agora, pensar em uma linha atravessando meus lábios é estranho demais. Mas como há coisas na vida em que não temos escolha, lá fui eu, sempre tentando manter a tranquilidade. O problema começou na hora da anestesia. Três picadas no lábio inferior e parecia que tinham amarrado uma pedra nele. Não demorou e o provável aconteceu: a pressão despencou e o consultório começou a rodar. Ok, nada que uns minutinhos de cabeça para baixo não resolvesse. Logo, quatro mãos (a do dentista e sua assistente) se revezavam tentando tirar à força aquela bolinha que há mais de dois meses me incomodava. Para minha surpresa, que me imaginei saindo de lá de ambulância, bastaram 20 minutos e estava tudo pronto. Minha boca já estava costurada e eu não tinha sentido nada. Nadica enquanto a linha atravessava a carne. Nem pude ver como é a agulha usada pelo dentista (porque, é claro que na minha cabeça ela é igual àquelas que tenho em casa para pregar botões). Quando ele disse pronto, ufa, que alívio! Eis que veio a frase: "vou deixar a linha com a ponta um pouco maior porque depois é mais fácil de tirar e dói menos". E eu que achei que boca fosse igual roupa. Depois de costurado, acabou!

18.4.09

Vamos prosear?

Prosear é melhor do que conversar. Prosear pressupõe uma garrafa de café quentinho, biscoitos de polvilho que derretem na boca, um bolo de laranja com calda de limão por cima e muito blá blá blá. Quando se "proseia" a pressa não existe. Interjeições típicas de um bom proseamento são Uai, sô, Nossa senhora, vixe, não vi não, ô lá em casa, Ave Maria!. Na prosa, ao contrário da conversa, as palavras são degustadas uma a uma. Prosa é algo que se faz entre amigos, principalmente os de longa data. Mas os novos amigos, desde que bons de prosa, também são bem-vindos. No calor, é bom prosear na varanda ou com a porta da cozinha aberta, convidando outros proseadores. No frio, um cobertor enrolado nas costas e um café fumegando dentro da caneca. Prosa boa tem bons contadores de histórias, mesmo que sejam inventadas.

6.4.09

Medo de avião

Eu mais que admito: tenho medo de avião. Medo não, pânico! A viagem é perfeita tirando o trajeto de ida e de volta. Quando me sento na poltrona, parece que alguma coisa me faz ficar colada nela. Nem para ir ao banheiro eu gosto de levantar. Sou daquelas que ficam procurando coisas estranhas na asa (“hum, acho que ela tá meio tortinha...”), barulhos suspeitos (sempre “cutuco” quem está do lado e pergunto “você ouviu isso?”), além de ficar pensando se vou conseguir colocar a tal máscara em caso de despressurização.

O “medão” começa no check-in, quando o atendente diz que precisa do telefone de algum parente que não esteja na viagem. Óbvio que é para no caso de algum acidente eles terem para quem ligar. Já dentro da aeronave você recebe a instrução de que caso o avião caia no mar os seus bancos são flutuantes. Confesso que gastei bons minutos pensando em estratégias de como tirar esse maldito banco caso o avião caia no oceano. Para finalizar, o comandante vem com informações curiosas, para situar o passageiro de que está voando a 900 km/h, a 10 mil metros de altitude e que a temperatura fora da aeronave é de -41 graus.

Alguém pode me explicar porque a gente tem que ficar lá em cima?