Reportagem que fiz com o músico Pélico, publicada na Revista do Tatuapé de outubro de 2011.
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| Foto: Katiuska Sales |
O último romântico
Com um disco que canta as relações amorosas de forma visceral, Pélico, que foi criado na Zona Leste, conquista seu espaço na música popular brasileira
Por Maisa Infante
Depois de ouvir o disco de Pélico, você vai ter tudo para achar que ele é um sofredor nato. Afinal, o amor cantado por ele é, principalmente, o desamor. E daqueles bem doídos (Levo uma vida menor/De amores tolos, perdidos/E esse seu dom de controlar/Me faz querer o impossível/Temos data pra terminar/Finjo que não acredito/Nosso trato prevê o pior/Mas o destino é impreciso). Claro, as histórias vividas por ele, que é também compositor das músicas do disco, algumas em parceria, inspiraram muitas das canções. Mas tem também histórias ouvidas por aí, vividas por outras pessoas, porque Pélico (que se chama Robson Pélico e prefere adotar apenas o sobrenome pela estranheza que ele causa) está sempre de olhos e ouvidos bem abertos para o que acontece a sua volta. “Muita coisa me inspira: o cotidiano, os romances mal e bem sucedidos, debates de balcão, ou seja, as relações. Mas a melhor definição para esse novo CD foi uma conversa que tive com minha mãe logo depois que fizemos uma audição. Ela ouviu os 52 minutos do disco bem quietinha e, em seguida, tivemos esse papo:
- Nossa, filho, as mulheres te inspiram, né?
- Sim, mãe. Bastante!
- E quando você conhecer um grande amor e se acalmar, sobre o que você vai escrever?
- Ah, vou ter que mudar de assunto.
- É verdade. Então faz como o Roberto, fale das baleias, dos caminhoneiros…
Com muita simplicidade, minha mãe entendeu que o que me move é o desafio, o processo da conquista”.
O disco a que ele se refere é Que isso fique entre nós, seu terceiro trabalho, que trouxe algumas surpresas ao rapaz de 35 anos, criado entre a região de Engenheiro Goulart e o Tatuapé. Ao transformar em letra e melodia o amor e toda a dramaticidade que permeia as relações, Pélico conseguiu agradar não apenas ao público, mas também aos críticos de música, que têm se derretido em elogios ao rapaz. Até o produtor, historiador e crítico musical Zuza Homem de Melo, que atuou nos famosos festivais dos anos 60 e escreveu o livro A Era dos Festivais, deu sua chancela: “o cara sabe fazer música”, disse. Também vieram ótimas avaliações em matérias de veículos importantes como Veja, Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Revista Rolling Stone e MTV, sem contar os blogs e sites.
O contato de Pélico com a música começou quando ainda vivia em Engenheiro Goulart e ficava de olho no avô, que tocava violão, cavaquinho e violino e, ao perceber a vontade do garoto de tocar, lhe deu um violão de presente. Uns arranhões na corda aqui e ali, a banda montada com os amigos e vizinhos até que, um dia, a história começou a ter outro rumo. “No final dos anos 90, peguei algumas músicas e, com o Marcos Rampazzo, que é da Mooca, produzi um EP (um disco com cerca de seis músicas) e fiz alguns shows. Aí conheci uma galera, juntei mais músicos e gravei meu primeiro disco em 2001”.
Esse disco, que se chama Melodrama, ninguém conhece. Está guardado em algum lugar na casa da mãe de Pélico, em Guarulhos. Os críticos chegaram a dizer que ele renega e esconde o primeiro filho, mas o músico garante que não é bem assim. “Eu gosto das canções, mas não me sinto à vontade com o jeito que eu cantava. Fui eu quem fiz muitos dos arranjos e não fico confortável com eles. Mas o disco está lá e uma hora eu posso pegar alguma coisa para regravar. E não tenho ódio do disco não, como já disseram por aí”, diz entre risos.
Depois desse trabalho misterioso, Pélico lançou um segundo disco, O último dia de um homem sem juízo, que tem uma pegada mais rock’n’roll, embora muitas letras também falem de amor. Já Que isso fique entre nós tem 100% de músicas falando sobre o amor e as relações. E o jeito simples e direto de falar sobre um assunto que permeia a vida de todo mundo parece ser parte da receita do sucesso. A outra parte vem de um disco bem arranjado, com sonoridades variadas, incluindo instrumentos não tão comuns de se ver na música pop, como o fagote e a tuba. “O resultado tem muito da mão do Bruno Bonaventuri, que fez os arranjos de metais e madeira de uma forma muito peculiar”.
Brega?
Por ser tão descarado na hora de falar de amor, Pélico tem sido chamado por aí de cantor brega. Mas ele mesmo acha que essa não é a categoria mais adequada para a sua música, embora não se incomode nem um pouco com o rótulo. “Não considero a minha música brega. No Brasil, durante algum tempo, o brega foi taxado como uma submúsica, de pessoas alienadas. Existia a turma intelectualizada e o cara que fazia a música para a massa era chamado de brega. É engraçado porque agora é meio chique ser brega, né?”, diz. “Acho que o que fez as pessoas dizerem que a minha música é brega, é o fato de o disco ter essa característica de falar das relações de forma exagerada. Tem também a forma mais visceral de cantar. Mas não me importo com isso. E quem ouvir o disco com atenção vai sacar que não é apelativo”, completa.
Mas ele não nega as influências de artistas como Roberto Carlos e Lupicínio Rodrigues. “Acho que tenho um pouco dessas referências, até porque tem a ver com o que eu ouvia quando criança. Minha mãe era costureira e gostava de ouvir o Zé Bettio. Eu ficava sentando, brincando com os retalhos, e aquele rádio como uma trilha sonora que, de certa forma, acaba te influenciando”.
Mercado da música
Embora tenha saído da Zona Leste há quatro anos, Pélico ainda guarda uma relação de afeto muito grande com o bairro. “Meu pai, mineiro, foi para Engenheiro Goulart muito menino e minha mãe, para o mesmo bairro, ainda bebê. Ou seja, desde os anos 40 até 2000 eles viveram na Zona Leste. Moraram no Tatuapé durante alguns anos, voltaram pra Engenheiro Goulart, trabalharam em Ermelino Matarazzo, tinham parentes em São Miguel. Enfim, viram a Zona Leste nascer. A maior parte da minha família mora no Tatuapé e em outros bairros da Zona Leste. Nossa ligação com a região é muito forte”. Em cerca de 15 minutos de papo ele cita nome de ruas, regiões, lembra de pessoas, dos lugares onde morou, conta que uma vez quis fazer um curso de DJ na Toco (famosa casa noturna da Vila Matilde), mas já na primeira aula descobriu que as pick-ups não eram sua vocação, e que quando se mudou da Engenheiro Goulart para o Tatuapé pela primeira vez, teve que ouvir piadas dos amigos. “Eles diziam: aí hein, virou playboy”, lembra.
Um dos desejos de Pélico é ver novos artistas saindo do reduto de casas de show e bares da Zona Sul e Oeste e alcançando um público em regiões um pouco mais carentes de novidades culturais, como a Zona Leste. “Sinto que as pessoas se acomodam e dizem: ‘não adianta levar esse tipo de música para outro lugar porque não vai ter público’. É um trabalho duro porque a chance de o seu primeiro evento dar errado é muito grande. Hoje em dia, a maioria dos artistas atinge um público que já é interessado naquele tipo de música. Atingir o público passivo é mais difícil, o que não significa que ele não goste. No fundo, o que acontece nesse momento é o que os novos artistas vivem do público ativo, que vai atrás e procura”.
Entre composições e shows, Pélico segue trabalhando em um estúdio (com jingles e trilhas sonoras) e divulgando Que isso fique entre nós. O sucesso, segundo ele, não é apenas uma questão artística, mas também mercadológica. “Claro que pode chegar uma empresa, como aconteceu com o Cansei de Ser sexy, lançar um MP3 e colocar a sua música lá. Mas temos que pensar que há cada vez mais gente produzindo e com uma fatia menor do mercado. É a democratização da produção”, diz. “E para mim o que importa é atingir quem não tem o olhar analítico. É o público que se emociona, ri, chora ou simplesmente não sente nada depois de ouvir o disco”, completa.