7.11.11

Ao som da viola


Com sede na Penha, Orquestra Paulistana de Viola Caipira quer divulgar o instrumento pelo País

A Orquestra Paulistana de Viola Caipira em ação
Em uma casa na Penha, o fogão de lenha é parte de um cenário que não tem muito a ver com a vida frenética das grandes cidades. É lá que, desde 2001, acontecem os ensaios e encontros da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, projeto tocado com afinco pelo maestro Rui Torneze, 48, um homem da cidade que se encantou com a cultura caipira e se tornou um nome importante no cenário da viola nacional. E o fogão a lenha é para o jantar que, todas as terças-feiras, é servido aos integrantes da orquestra logo depois do ensaio.

Composta por 50 integrantes, a orquestra viaja o Brasil com a missão de formar público para a viola caipira. “Hoje, não tem quem consuma a música de viola porque o pessoal não está acostumado a ouvir. É um produto tão refinado quanto a música erudita”, avalia Rui. Para isso, a orquestra usa um repertório misto, com grandes clássicos da música caipira entremeados por sons mais conhecidos como choro, fado, MPB, tango e música latino-americana, para seduzir o público.
A história dessa orquestra, que tem sua sede na Penha, mas recebe músicos da cidade toda e até do interior (há quem viaje de Cotia para a Zona Leste de São Paulo todas as terças-feiras para participar dos ensaios) está profundamente ligada à história de Rui Torneze com a música. Criado em uma família muito musical, o maestro cresceu ouvindo música erudita. “Minha família sempre foi muito humilde, mas com um gosto musical refinado. Minha nonna, mãe da minha mãe, colocava óperas italianas a todo volume no toca disco”, conta.
Foi depois de ouvir Pena Branca e Xavantinho pela primeira vez que Rui se encantou com as modas de viola e suas letras cheias de emoção. Quando começou a trabalhar como auditor e a viajar pelo Brasil, teve a oportunidade de conhecer muito da vida interiorana e se aproximou ainda mais da cultura caipira. Perdeu o emprego de auditor e resolveu dar aulas de viola para ganhar a vida. Começou uma nova profissão. Deu tão certo que ele nunca mais parou. Lançou até livros didáticos para quem quer aprender viola. 

E a orquestra surgiu justamente por causa dessas aulas. Na disciplina de prática de conjunto, que existe em todas as escolas de música, Rui começou a juntar vários alunos de viola e, um dia, foram tocar, despretensiosamente, em um pesqueiro. Os que ouviram gostaram tanto que eles começaram a se apresentar mais vezes, cada vez mais organizados, até virarem uma orquestra formalizada. Hoje, os músicos tocam por paixão, mas recebem cachê para isso. “Em 2001, começamos a cobrar pelas apresentações porque percebi que, para ter longevidade, a orquestra precisava se sustentar”, conta Rui.  

Mas fazer parte da orquestra, para os músicos, não é apenas ganhar dinheiro. Além de fazerem o que gostam, eles se mantêm em contato com a sua própria história, a sua própria identidade. “Com a viola percebemos que mostramos ao nosso povo as suas verdadeiras raízes, suas origens, porque cantamos, nas músicas, os costumes de nossos pais, avós, bisavós e demais antepassados. As pessoas se identificam, se emocionam e muitos daqueles que antes nos assistiam hoje tocam conosco, fazem parte do time”. Rui lembra que um dos músicos da orquestra chorou quando o grupo interpretou a música Casa de Barro, que conta a história de um caboclo que saiu do campo para ganhar a vida na cidade. “A história de muitas das pessoas que fazem parte da orquestra é essa, de alguém que saiu do interior para ganhar a vida aqui. Essas pessoas vieram para trabalhar como proletários, na indústria e encontraram na viola uma forma de resgatar a sua história e cidadania”.

O maestro Rui Torneze mostra a xiloteca com madeiras que podem ser usadas na confeção de viola. Ela faz parte do Instituto São Gonçalo de Estudos Caipira
Mas a casa da Penha não funciona apenas como lugar para ensaio da orquestra. Lá é, na verdade, o Instituto São Gonçalo de Estudos Caipira, que engloba, além da orquestra, uma escola de viola e um pequeno acervo, que ainda está em formação, sobre a cultura caipira. Há livros, discos, instrumentos e até uma xiloteca, com todos os tipos de madeira que podem ser utilizados na confecção de uma viola. E um dos orgulhos de Rui é, no meio de todo esse trabalho, conseguir formar novas orquestras de viola no País. Já são mais de 20 no estado de São Paulo, além de orquestras no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. A próxima será em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. E é ao lado do filho Lucas, 23, que ele segue criando redutos de viola caipira pelo Brasil afora. “Lucas é meu filho e meu companheiro. Desde os 10 anos ele segue junto a mim, como músico da orquestra. Então, nos incumbimos de abrir essas frentes de disseminação do instrumento, que ajuda a formar público e divulgar ainda mais a viola”. (Por Maisa Infante. Matéria publicada na Revista do Tatuapé)

1.11.11

Ah! Gonçalves, quanta saudade....


Trem bão, uai!

Deixe a pressa em casa e aproveite para descansar na serra mineira de Gonçalves

Percorrer os 200 km que separam São Paulo de Gonçalves é seguir em direção ao paraíso. Com apenas cinco mil habitantes (dos quais apenas mil moram na área urbana, e o restante na zona rural), a cidade serrana é um desses lugares que fazem os paulistanos pararem para pensar por que, afinal, moram em uma cidade tão frenética? Não é à toa que eles andam comprando casas e montando seus estabelecimentos comerciais por lá. Pequena e bucólica, Gonçalves é um lugar que vive, principalmente, da agricultura, mas que, aos poucos, vê o seu turismo ser incrementado.
Hoje, são cerca de 40 pousadas na região, a grande maioria incrustada no meio do mato, envolta pela serra mineira com suas curvas e encantos. Os atrativos turísticos são as cachoeiras, pedras, mirantes e paisagens. Além, é claro, do clima serrano e aconchegante, que, no inverno, convida a um bom vinho à frente da lareira e, no verão, pede um banho gelado de cachoeira. Embora já explore o turismo há algum tempo, Gonçalves mantém o clima pacato da vidinha do interior. Por isso, vale investir naquele turismo sem pressa e sem agenda. Chegar sem saber exatamente qual roteiro seguir pode render boas conversas e descobertas. Os moradores, sempre falando com aquele sotaque mineiro bem acentuado, são muito acolhedores e, para a surpresa dos paulistanos – acostumados com pessoas que não conversam e não dão informação –, não se incomodam em “frear” os cavalos para explicar como se chega  a determinado lugar.
E você vai precisar de boas informações, já que não é um lugar com trilhas bem marcadas ou uma sinalização que beneficie os turistas. Por lá, é preciso perguntar como se chega às cachoeiras, pedras e mirantes. Algumas, como a do Simão, são de acesso muito fácil, inclusive para crianças e idosos, já que não é preciso enfrentar nenhuma pirambeira. A maior parte do caminho é possível fazer de carro. Anda-se  a pé apenas alguns metros. Se a escolhida for a Sete Quedas, estacione o carro na pousada Trem das Cores (geralmente, eles cedem o estacionamento aos turistas, que acabam passando na loja da pousada para comprar artesanato) e não deixe de seguir o Cocara, um cão que recepciona os visitantes na porta do carro. Com seu andar rápido, ele acompanha todo mundo até a cachoeira e aproveita para se refrescar. E entre uma cachoeira e outra, não deixe de apreciar a paisagem. A serra de Gonçalves é belíssima, mesmo se o clima estiver seco.

Culinária
Gonçalves também é um bom lugar para os apreciadores da boa gastronomia. O turismo gastronômico começa aos sábados, quando há uma feira de orgânicos na qual é possível comprar verduras, alguns doces e biscoitos e um delicioso bolo de gengibre. Também não deixe de levar uma bolsa térmica e passar na quitanda da cidade para comprar um queijo branco e trazer um pouco do sabor de Minas de volta para São Paulo.
Quando for almoçar, o Kitanda Brasil é parada obrigatória. O restaurante da chef Tanea Romão é um passeio imperdível. O salão principal é, na verdade, um jardim com Ipê, Jasmim, Jabuticabeira e outras árvores. As mesas, rústicas e despretensiosas, ficam espalhadas pela grama e convidam a passar algumas horas saboreando o menu degustação. Uma das fundadoras da Senhora das Especiarias, empresa de geleias  exóticas que tem sede em Gonçalves e vende seus produtos nos empórios mais badalados de São Paulo, Tanea é uma chef/pesquisadora. Adora conhecer a história dos alimentos e dos ingredientes e acha que é preciso conhecer o que ingerimos. Há um ano ela abriu o restaurante, que possui apenas um menu degustação. No dia em que a reportagem esteve lá, foram servidos pães acompanhados de manteiga aromatizada em quatro sabores (alho, abacaxi, frutas do bosque e manga); bolinho de arroz acompanhado com uma mistura de mel com pimenta e mel com manjericão; bolinho de tapioca com creme de chocolate com cachaça; bolinho de polvilho com creme de cupuaçu e pimenta; pururuca; salada de folhas com molho de mostarda, morango e rosas; e, finalmente, o prato principal, com costela assada no fogão à lenha, arroz, tutu de feijão e couve rasgada. De sobremesa, uma sopa de queijo com doce de leite e doce de mamão cristalizado. Para acompanhar o cardápio, não deixe de bater um papo com a Tanea. Circulando pelo “salão”, ela ajuda a servir os clientes e ainda está sempre disposta a explicar sobre os pratos, os ingredientes, o restaurante ou, simplesmente, conversar. Atuante no movimento slow food e adepta dos ingredientes tipicamente brasileiros, é uma ótima fonte para quem quer saber mais sobre a gastronomia nacional.


Ainda na cidade, faça uma visita ao Bar do Marcelo, que tem uma adega no subsolo onde se encontram centenas de rótulos de cachaça. Para quem procura um lugar que lembre um pouco São Paulo, vale a pena visitar  o Café com Verso, um misto de café e livraria que é mais um dos lugares montados por paulistanos que abandonaram a loucura de São Paulo pela tranquilidade de Gonçalves. Do andar de cima, é possível ter uma bela vista da cidade.

Coisas de Minas
Além de conhecer as belas paisagens e experimentar a boa gastronomia, passear por Gonçalves também significa se perder. Quem estiver com tempo e disposição, pode pegar o carro e, simplesmente, ir passeando pela serra. É possível encontrar casas à venda, lugares que vendem doces e amoras, ateliês de arte, ou ainda cruzar com cavaleiros a trabalho que não se incomodam em parar para explicar, mais de uma vez, como se chega a determinado lugar. A paisagem bucólica fica ainda mais bonita quando se avistam casas charmosas, uma capela ou árvores frondosas. E não se acanhe em parar diante de um lugar com a placa de “vende-se alguma coisa”. Na sua mineirice, os moradores com certeza o receberão de braços abertos.


Como chegar
Carvalho Pinto (204 km)
Fernão Dias (182 km)

(Matéria publicada na Revista do Tatuapé)

13.10.11

Dia do dentista francano

Um dos vereadores de Franca (SP), Luis Otávio Rodrigues Pinheiro, gastou seu tempo e seu dinheiro (ops, nosso dinheiro) para propor o seguinte projeto: a instituição do Dia do Dentista Francano. Não me alongo no assunto, mas coloco aqui a justificativa dele para o projeto: "O Dia do Dentista é comemorado nacionalmente no dia 25 de outubro e nossa proposta é instituir uma homenagem em nível municipal a esse profissional que trata da prevenção de doenças e da correta higiene bucal, tratando dentes, gengivas e alguns ossos faciais, como a mandíbula, além de corrigir a posição de dentes através da ortodontia".
Pense antes de votar!

12.10.11

A pauta que não foi


Era um dia de calor quase escaldante (afinal, o verão não chegou ainda) e organizamos todo o nosso dia para desbancar do Tatuapé ao centro da cidade. Equipamento no carro e GPS na cabeça. Iríamos matar duas pautas em um único dia. Jornalista não pode perder a viagem, né? Como dois farofeiros, fomos, eu e o fotógrafo, com o carro cheio de equipamento que nem sei o nome. Como o GPS embutido veio com defeito, paramos o carro um pouco longe do primeiro destino: a locação emprestada para montar um micro estúdio e fotografar brinquedos antigos para uma pauta de Dia das Crianças. Andamos muitos quarteirões com peso nas costas até chegarmos. Descarregamos a tralha e saímos correndo para a primeira pauta, apenas uma foto de uma personagem para uma matéria de saúde. Atravessamos o Viaduto do Chá e ficamos esperando a fotografada no Pateo do Collegio. Como não combinamos a cor da roupa e não nos conhecíamos, ficamos um tempo esperando. Mas ela chegou. Fizemos o trabalho e ainda tínhamos uns 40 minutos até o horário das fotos dos brinquedos, que era a pauta mais importante da empreitada. Então, voilá, aproveitamos para almoçar ali mesmo. Hora de ir embora e pagar a conta. Uma fila com uns 10 gringos fez com que o simples pagamento de uma conta demorasse 15 minutos. Hora de ligar para os personagens da próxima pauta e avisar que atrasaríamos um pouquinho. Mas Murphy, eu acho, estava na ativa e o telefone deu caixa postal nas três vezes que liguei. Bem, esperamos os gringos desembolsarem seus dólares convertidos em real, pagamos e atravessamos novamente o Viaduto do Chá. Esbaforidos, colocamos o pé na banca de brinquedos dos entrevistados dizendo: desculpem o atraso. A resposta foi como um céu que se fecha de repente quando você vai à praia: “Deram sorte, estávamos indo embora”. E aí o diálogo degringolou:
- Eu liguei várias vezes para avisar que atrasaríamos, mas deu caixa postal.
- É hoje está dando tudo errado. A gente pode deixar pra fazer essas fotos outro dia? É que estou muito mal, com gripe, dor no corpo, só vim aqui para te falar isso?
- (Fiquei sem palavras) Outro dia não dá.
- Mas eu estou mal mesmo e nem trouxe os brinquedos. E para fazer uma coisa mais ou menos não vai ficar legal.
- Então eu vou derrubar a pauta.
- Desculpa.
- Tudo bem.
E fomos embora calados, como se uma tempestade tivesse acabado com o dia de farofa na praia.

Pélico, o último romântico?

Reportagem que fiz com o músico Pélico, publicada na Revista do Tatuapé de outubro de 2011.

Foto: Katiuska Sales

O último romântico

Com um disco que canta as relações amorosas de forma visceral, Pélico, que foi criado na Zona Leste, conquista seu espaço na música popular brasileira

Por Maisa Infante

Depois de ouvir o disco de Pélico, você vai ter tudo para achar que ele é um sofredor nato. Afinal, o amor cantado por ele é, principalmente, o desamor. E daqueles bem doídos (Levo uma vida menor/De amores tolos, perdidos/E esse seu dom de controlar/Me faz querer o impossível/Temos data pra terminar/Finjo que não acredito/Nosso trato prevê o pior/Mas o destino é impreciso). Claro, as histórias vividas por ele, que é também compositor das músicas do disco, algumas em parceria, inspiraram muitas das canções. Mas tem também histórias ouvidas por aí, vividas por outras pessoas, porque Pélico (que se chama Robson Pélico e prefere adotar apenas o sobrenome pela estranheza que ele causa) está sempre de olhos e ouvidos bem abertos para o que acontece a sua volta.  “Muita coisa me inspira: o cotidiano, os romances mal e bem sucedidos, debates de balcão, ou seja, as relações. Mas a melhor definição para esse novo CD foi uma conversa que tive com minha mãe logo depois que fizemos uma audição. Ela ouviu os 52 minutos do disco bem quietinha e, em seguida, tivemos esse papo:
- Nossa, filho, as mulheres te inspiram, né?
- Sim, mãe. Bastante!
- E quando você conhecer um grande amor e se acalmar, sobre o que você vai escrever?
- Ah, vou ter que mudar de assunto.
- É verdade. Então faz como o Roberto, fale das baleias, dos caminhoneiros…
Com muita simplicidade, minha mãe entendeu que o que me move é o desafio, o processo da conquista”.
O disco a que ele se refere é Que isso fique entre nós, seu terceiro trabalho, que trouxe algumas surpresas ao rapaz de 35 anos, criado entre a região de Engenheiro Goulart e o Tatuapé. Ao transformar em letra e melodia o amor e toda a dramaticidade que permeia as relações, Pélico conseguiu agradar não apenas ao público, mas também aos críticos de música, que têm se derretido em elogios ao rapaz. Até o produtor, historiador e crítico musical Zuza Homem de Melo, que atuou nos famosos festivais dos anos 60 e escreveu o livro A Era dos Festivais, deu sua chancela: “o cara sabe fazer música”, disse. Também vieram ótimas avaliações em matérias de veículos importantes como Veja, Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Revista Rolling Stone e MTV, sem contar os blogs e sites.
O contato de Pélico com a música começou quando ainda vivia em Engenheiro Goulart e ficava de olho no avô, que tocava violão, cavaquinho e violino e, ao perceber a vontade do garoto de tocar, lhe deu um violão de presente. Uns arranhões na corda aqui e ali, a banda montada com os amigos e vizinhos até que, um dia, a história começou a ter outro rumo. “No final dos anos 90, peguei algumas músicas e, com o Marcos Rampazzo, que é da Mooca, produzi um EP (um disco com cerca de seis músicas) e fiz alguns shows. Aí conheci uma galera, juntei mais músicos e gravei meu primeiro disco em 2001”.
Esse disco, que se chama Melodrama, ninguém conhece. Está guardado em algum lugar na casa da mãe de Pélico, em Guarulhos. Os críticos chegaram a dizer que ele renega e esconde o primeiro filho, mas o músico garante que não é bem assim. “Eu gosto das canções, mas não me sinto à vontade com o jeito que eu cantava. Fui eu quem fiz muitos dos arranjos e não fico confortável com eles. Mas o disco está lá e uma hora eu posso pegar alguma coisa para regravar. E não tenho ódio do disco não, como já disseram por aí”, diz entre risos.
Depois desse trabalho misterioso, Pélico lançou um segundo disco, O último dia de um homem sem juízo, que tem uma pegada mais rock’n’roll, embora muitas letras também falem de amor. Já Que isso fique entre nós tem 100% de músicas falando sobre o amor e as relações. E o jeito simples e direto de falar sobre um assunto que permeia a vida de todo mundo parece ser parte da receita do sucesso. A outra parte vem de um disco bem arranjado, com sonoridades variadas, incluindo instrumentos não tão comuns de se ver na música pop, como o fagote e a tuba. “O resultado tem muito da mão do Bruno Bonaventuri, que fez os arranjos de metais e madeira de uma forma muito peculiar”.

Brega?
Por ser tão descarado na hora de falar de amor, Pélico tem sido chamado por aí de cantor brega. Mas ele mesmo acha que essa não é a categoria mais adequada para a sua música, embora não se incomode nem um pouco com o rótulo. “Não considero a minha música brega. No Brasil, durante algum tempo, o brega foi taxado como uma submúsica, de pessoas alienadas. Existia a turma intelectualizada e o cara que fazia a música para a massa era chamado de brega. É engraçado porque agora é meio chique ser brega, né?”, diz. “Acho que o que fez as pessoas dizerem que a minha música é brega, é o fato de o disco ter essa característica de falar das relações de forma exagerada. Tem também a forma mais visceral de cantar. Mas não me importo com isso. E quem ouvir o disco com atenção vai sacar que não é apelativo”, completa.
Mas ele não nega as influências de artistas como Roberto Carlos e Lupicínio Rodrigues. “Acho que tenho um pouco dessas referências, até porque tem a ver com o que eu ouvia quando criança. Minha mãe era costureira e gostava de ouvir o Zé Bettio. Eu ficava sentando, brincando com os retalhos, e aquele rádio como uma trilha sonora que, de certa forma, acaba te influenciando”.

Mercado da música
Embora tenha saído da Zona Leste há quatro anos, Pélico ainda guarda uma relação de afeto muito grande com o bairro. “Meu pai, mineiro, foi para Engenheiro Goulart muito menino e minha mãe, para o mesmo bairro, ainda bebê. Ou seja, desde os anos 40 até 2000 eles viveram na Zona Leste. Moraram no Tatuapé durante alguns anos, voltaram pra Engenheiro Goulart, trabalharam em Ermelino Matarazzo, tinham parentes em São Miguel. Enfim, viram a Zona Leste nascer. A maior parte da minha família mora no Tatuapé e em outros bairros da Zona Leste. Nossa ligação com a região é muito forte”. Em cerca de 15 minutos de papo ele cita nome de ruas, regiões, lembra de pessoas, dos lugares onde morou, conta que uma vez quis fazer um curso de DJ na Toco (famosa casa noturna da Vila Matilde), mas já na primeira aula descobriu que as pick-ups não eram sua vocação, e que quando se mudou da Engenheiro Goulart para o Tatuapé pela primeira vez, teve que ouvir piadas dos amigos. “Eles diziam: aí hein, virou playboy”, lembra.
Um dos desejos de Pélico é ver novos artistas saindo do reduto de casas de show e bares da Zona Sul e Oeste e alcançando um público em regiões um pouco mais carentes de novidades culturais, como a Zona Leste. “Sinto que as pessoas se acomodam e dizem: ‘não adianta levar esse tipo de música para outro lugar porque não vai ter público’. É um trabalho duro porque a chance de o seu primeiro evento dar errado é muito grande. Hoje em dia, a maioria dos artistas atinge um público que já é interessado naquele tipo de música. Atingir o público passivo é mais difícil, o que não significa que ele não goste. No fundo, o que acontece nesse momento é o que os novos artistas vivem do público ativo, que vai atrás e procura”.
Entre composições e shows, Pélico segue trabalhando em um estúdio (com jingles e trilhas sonoras) e divulgando Que isso fique entre nós. O sucesso, segundo ele, não é apenas uma questão artística, mas também mercadológica. “Claro que pode chegar uma empresa, como aconteceu com o Cansei de Ser sexy, lançar um MP3 e colocar a sua música lá. Mas temos que pensar que há cada vez mais gente produzindo e com uma fatia menor do mercado. É a democratização da produção”, diz.  “E para mim o que importa é atingir quem não tem o olhar analítico. É o público que se emociona, ri, chora ou simplesmente não sente nada depois de ouvir o disco”, completa.

"O caos de São Paulo é pedagógico"

Entrevista que fiz com o jornalista Milton Jung, publicada na Revista do Tatuapé de outubro/2011



Um gaúcho paulistano

Jornalista radicado há 20 anos em São Paulo defende a conscientização como uma das formas de mudar a cidade

Por Maisa Infante

Envolver-se com a cidade onde se mora é um movimento natural do ser humano. Afinal, a cidade é a extensão de nossas casas. Mas a verdade é que nem sempre isso acontece. Mesmo hoje, com a informação (boa e ruim) disponível em qualquer esquina, há quem prefira não se envolver e manter uma certa distância do que acontece além dos limites dos muros de suas casas. Pois não é o que acontece com o jornalista Milton Jung, 48, um gaúcho que vive há 20 anos em São Paulo e se tornou referência para falar sobre a cidade e seus problemas. Afinal, foram mais de 10 anos discutindo e refletindo sobre a metrópole no CBN São Paulo, programa que apresentou até fevereiro deste ano, quando assumiu o Jornal da CBN no lugar de Heródoto Barbero. A reflexão sobre as questões urbanas e a cidadania o fez criar o ‘Adote um Vereador’, projeto que estimula a participação das pessoas na vida legislativa da cidade. Os resultados, ele espera, talvez sejam vistos nas eleições de 2012.
Confira nesta entrevista o que o jornalista pensa sobre a cidade e seus problemas, e também o que faz dele um legítimo cidadão paulistano, apesar de torcedor do Grêmio.

Como começou o seu envolvimento com a cidade de São Paulo?
No final de 1990, vim a São Paulo para assistir ao casamento de um amigo e aproveitei para fazer um teste na TV Globo. A pauta era um incêndio na Mooca e, quando cheguei lá, descobri que eram casas tombadas que estavam pegando fogo e que a discussão não era o incêndio, mas sim uma questão urbana. Era um patrimônio da cidade que estava se desmontando e pegando fogo porque ninguém cuidava. E transformei a pauta nisso. Parece que por destino a cidade foi se colocando no meu caminho. Quando mudei para São Paulo para trabalhar na Globo, comecei fazendo pautas da cidade. Quando fui para o rádio, em pouco tempo fui para o CBN São Paulo e aprofundei a discussão urbanística. Eu tinha convicção de que fazer um programa com a missão de ser um fórum de debates da cidade seria importante para a minha carreira. Pude desenvolver uma ideia que eu sempre tive de que é na cidade que tudo começa. Então, minha vida foi se aproximando de São Paulo, acabei casando aqui, meus filhos nasceram aqui e estou há 20 anos nesta cidade.
                                                               
Na sua visão, qual o maior problema de São Paulo?
A mobilidade. E não me refiro ao trânsito que causa problemas, poluição e até mesmo mata. Falo do impedimento que o cidadão tem de andar livremente na cidade. Com o deslocamento restrito ele perde oportunidades. Então, mais do que pensar no meu carro que se desloca cada vez com menos velocidade e no tempo que eu levo para trabalhar ou voltar para casa, penso nessa pessoa que perde oportunidades pela falta de acesso aos lugares porque a distância é muito grande, o transporte é precário e ele não consegue melhorar sua vida em função disso. A questão da mobilidade toca na saúde pública e na educação, porque a pessoa não consegue ir para muito longe de onde ela está para ir a escolas melhores. E aí podemos pensar no caminho contrário. Você mora no extremo de São Paulo e a sua escola naquela região está predestinada a ser de baixa qualidade porque os bons professores não querem ir até lá, os médicos de boa qualidade não vão até o posto de saúde. Ou seja, o deslocamento é de ida e volta. Por mais que se coloque dinheiro, se queira fazer um prédio bonito, a qualidade de mão de obra é baixa porque pessoas que aceitam enfrentar esse acesso não são, necessariamente, os melhores profissionais.

Embora o poder público tenha responsabilidade, nós, cidadãos, também temos uma parcela de culpa no que acontece na cidade, não?
Nós destratamos São Paulo. Quando você pega a questão do lixo ou do entulho jogado em um canto, simplesmente responsabilizar a prefeitura é não estar atento ao que realmente acontece. Eu até responsabilizo a prefeitura, mas por outro motivo. O cidadão que faz uma reforma na sua casa e chama alguém para recolher o entulho ms não tem o interesse em saber qual o destino final daquele material, não é responsável pela sua cidade. Ele é responsável só pelo seu quintal. É preciso educação, conscientização e campanhas permanentes. Construímos uma cultura durante anos que não vai ser mudada em três meses. A prefeitura tem inteligência para isso, mas prefere gastar dinheiro em uma marginal Tietê que custa R$ 1 bilhão para a cidade em vez de trabalhar com a consciência. Porque você não pendura placa na consciência do cidadão dizendo ‘eu que inaugurei’. As pessoas não enxergam esse trabalho, isso demora a ter reflexo na cidade. E não dá pra culpar o cidadão que compra um carro para se deslocar, ou troca o ônibus por uma moto. Ele está sendo inteligente na sua lógica porque vê o custo que é andar de ônibus e o sacrifício que ele passa e pensa: ‘com a moto eu consigo sair daqui e chegar lá’. Já cidade tem que pensar por todos, em conjunto. A culpa da prefeitura é não trabalhar a consciência do cidadão.

Lidar tanto com questões urbanas te fez mudar a sua relação com a cidade?
Sem dúvida, a cidade me ensinou. O caos de São Paulo foi pedagógico porque me mostrou que se você não fizer por sua conta, não mudar a sua forma de pensar, a cidade vai acabar. Quando o Maluf assumiu a prefeitura, depois da Erundina, fui cobrir os primeiros meses de governo e logo ele anunciou o fim da coleta seletiva, que era muito cara para a cidade. No momento em que ouvi aquilo, pensei: “tenho que separar o meu material”. Porque a única justificativa que não se pode dar a essa questão é que é caro. A qualidade de vida não tem um preço. Quando eu vi aquilo lembrei que meu irmão, tempos atrás, já tinha me cobrado do porquê eu não separar o lixo seco, algo que em Porto Alegre já se fazia. Eu disse: ‘tenho que cuidar disso na minha casa, não dá para esperar esses caras, não vai funcionar’. Infelizmente, eu ainda não consegui abandonar o carro, mas muitos hábitos já mudei. Hoje, ao comprar um produto, levo em conta o tipo de embalagem, por exemplo. Além disso, tento fazer ao máximo as coisas dentro da minha região.

E como surgiu o Adote um Vereador?
Em 2008, quando acabou a eleição e saíram os nomes dos 55 vereadores eleitos, um dado mostrava que 2/3 da população não conseguia eleger o seu representante. A importância do vereador é muito grande na minha qualidade de vida, sem contar que tudo que ele faz na câmara é com o meu dinheiro. Sou eu que pago, então tenho responsabilidade e obrigação de controlar. Por isso surgiu a ideia de adotar um vereador. O adotar significa escolher um dos 55 e passar a fiscalizá-lo, levantar informações sobre ele, que tipo de projeto ele vota, se comparece na câmara ou não, o que pensa sobre diferentes assuntos, e começar a publicar as informações em um blog. A ideia é ter uma rede de informações sobre um determinado vereador que, na próxima eleição, vai ajudar as pessoas a qualificar melhor o seu voto. Hoje temos 18 blogs acompanhando vereadores. E alguns desses participantes acompanham todos os vereadores, divulgam o trabalho da câmara e cobram todos. São fontes de informação não só do cidadão, mas também da imprensa. Infelizmente a sociedade só pensa na câmara municipal num momento de crise ou no período da eleição. Mas a nossa indignação tem que vir antes. A câmara vota uma lei e as pessoas reagem àquela lei. Eu digo que a indignação vem na hora errada. Se essa indignação tivesse vindo antes da votação, talvez você tivesse conseguido mudar o voto das pessoas.

16.8.11

Nobres vereadores paulistanos


Um post no blog do jornalista Milton Jung me atiçou a curiosidade por informações mais detalhadas sobre a câmara municipal de São Paulo. A ideia é avaliar os projetos propostos pelos vereadores de acordo com critérios usados pela ONG Voto Consciente. Eu decidi fazer diferente, pelo menos a princípio. Segui o caminho indicado por Milton, mas cliquei no nome do primeiro vereador que aparece e olhei os 10 primeiros projetos que aparecem (a lista começa pelos mais recentes). Sr Abou Anni, eu daria um belo zero para o senhor! Nomes de praças e ruas, uso de crachás e publicidade no site é tudo que São Paulo menos precisa no momento. 

Reproduzo aqui as propostas dos 10 projetos (copiei e colei do site da câmara, então está com a grafia que aparece por lá), um resumo (feito por mim) da justificativa, e um link (basta clicar na palavra justificativa) para quem quiser lê-las por completo. Vale a pena para ver quem nos representa no legislativo. Eu decidi colocar as datas que aparecem para termos uma ideia do que os nobres vereadores produzem nos seus dias de trabalho. E vou tentar fazer esse levantamento com outros vereadores nos próximos dias... Vamos ver se consigo tempo.

Vereador Abou Anni
1 - 5/5/2011
DISPOE SOBRE A ISENCAO DO PAGAMENTO DE TARIFA NO TRANSPORTE COLETIVO URBANO DE PASSAGEIROS DO MUNICIPIO DE SAO PAULO, AOS MOTORISTAS, COBRADORES, FUNCIONARIOS DA MANUTENCAO, FISCALIZACAO E ADMINISTRACAO, QUE JA SE ENCONTRAM APOSENTADOS E QUE SE APOSENTAREM PERANTE O SISTEMA ESTRUTURAL OU LOCAL, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Problema na página da justificativa. Não consegui ler.

2 - 13/04/2011
DENOMINA A PRACA MARIO PAGNOZZI O LOGRADOURO PUBLICO INOMINADO, SITUADO NO JARDIM SAO LUIS
Justificativa - Mario Pagnozzi foi fazendeiro e político de Dracena – “Vale dizer que a presente iniciativa é meritória, pois a homenagem retrata a trajetória do exemplo de honestidade, dedicação e luta, ora predicados do desbravador da região oeste do Estado de São Paulo.

3 - 05/04/2011
DENOMINA PONTE ESTAIADA INSTITUTO DE ENGENHARIA, O LOGRADOURO PUBLICO SEM DENOMINACAO, SITUADO NOS DISTRITOS DE BOM RETIRO E SANTANA, RESPECTIVAMENTE NAS SUBPREFEITURAS DA SE E SANTANA
Justificativa – Enumera a importância desses Instituto para a cidade de São Paulo e cita sua relevância para o desenvolvimento e crescimento do País

4 – 05/04/2011
DENOMINA RUA JOSE RODRIGUES DE SOUZA O LOGRADOURO PUBLICO INOMINADO, SITUADO NO DISTRITO DO PARQUE DO CARMO
Justificativa - Jose Rodrigues de Souza era cobrador de ônibus e sindicalista, morreu de doença de chagas.

5 – 05/04/2011
ALTERA A DENOMINACAO DO CLUBE DA CIDADE - CDC UNIAO NORDESTE FC & BOCHA, LOCALIZADO NA RUA PIRAQUARA, Nº 31, JARDIM NORDESTE, PARA CDC SEBASTIAO MANOEL DA CUNHA, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Homenagem ao fundador do clube esportivo União Nordeste

6 – 05/04/2011
DISPOE SOBRE A POPULACAO DE INFORMACOES ACERCA DA INCIDENCIA DA APLICACAO DO REGULAMENTO DAS SANCOES E MULTAS, ASSIM COMO DOS RECURSOS APRECIADOS PELA COMISSAO DE INFRACOES E MULTAS E PELO SECRETARIO MUNICIPAL DE TRANSPORTES, NA PAGINA ELETRONICA DA PREFEITURA, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Pelo que entendi da linguagem rebuscada dos nobres vereadores, a ideia é colocar no site da prefeitura as multas que foram aplicadas nas empresas de ônibus da cidade.

7 – 15/12/2010
DENOMINA PRACA MATHIAS SCHUSTER O LOGRADOURO PUBLICO INOMINADO SITUADO NO DISTRITO DE ARTUR ALVIM
Justificativa - Homenagem a um alemão que veio para o Brasil e ajudou a melhorar o bairro em que morava.

8 – 15/12/2010
DISPOE SOBRE A POSSIBILIDADE DE SUBSTITUICAO DE VEICULO ESCOLAR REGISTRADO POR OUTRO SIMILAR EM VIRTUDE DE AVARIA MECANICA OU DE OUTRA ORIGEM, PELO PRAZO MAXIMO DE 30 (TRINTA) DIAS, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Quer permitir que as vans escolares possam ser substituídas, durante 30 dias, por outras, similares e não cadastradas na prefeitura, caso precisem de ir para o conserto. O poder público deve ser avisado antes. 

9 – 06/10/2010
DISPOE SOBRE O USO OBRIGATORIO DE CRACHA POR FUNCIONARIOS, EMPREGADOS, TEMPORARIOS E PARTICULARES EM COLABORACAO, NO EXERCICIO DE ATRIBUICAO PUBLICA MUNICIPAL, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Inibir o abuso de poder, já que o funcionário identificado ficaria mais acuado

10 – 06/10/2010
DISPOE SOBRE A PUBLICACAO DE INFORMACOES ATINENTES AO SERVICO DO TRANSPORTE COLETIVO URBANO DE PASSAGEIROS, NO ENDERECO ELETRONICO DO PODER PUBLICO MUNICIPAL, E DA OUTRAS PROVIDENCIAS
Justificativa - Não entendi.