Com sede na Penha, Orquestra Paulistana de Viola Caipira quer divulgar o instrumento pelo País
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| A Orquestra Paulistana de Viola Caipira em ação |
Em uma casa na Penha, o fogão de lenha é parte de um cenário que não tem muito a ver com a vida frenética das grandes cidades. É lá que, desde 2001, acontecem os ensaios e encontros da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, projeto tocado com afinco pelo maestro Rui Torneze, 48, um homem da cidade que se encantou com a cultura caipira e se tornou um nome importante no cenário da viola nacional. E o fogão a lenha é para o jantar que, todas as terças-feiras, é servido aos integrantes da orquestra logo depois do ensaio.
Composta por 50 integrantes, a orquestra viaja o Brasil com a missão de formar público para a viola caipira. “Hoje, não tem quem consuma a música de viola porque o pessoal não está acostumado a ouvir. É um produto tão refinado quanto a música erudita”, avalia Rui. Para isso, a orquestra usa um repertório misto, com grandes clássicos da música caipira entremeados por sons mais conhecidos como choro, fado, MPB, tango e música latino-americana, para seduzir o público.
A história dessa orquestra, que tem sua sede na Penha, mas recebe músicos da cidade toda e até do interior (há quem viaje de Cotia para a Zona Leste de São Paulo todas as terças-feiras para participar dos ensaios) está profundamente ligada à história de Rui Torneze com a música. Criado em uma família muito musical, o maestro cresceu ouvindo música erudita. “Minha família sempre foi muito humilde, mas com um gosto musical refinado. Minha nonna, mãe da minha mãe, colocava óperas italianas a todo volume no toca disco”, conta.
Foi depois de ouvir Pena Branca e Xavantinho pela primeira vez que Rui se encantou com as modas de viola e suas letras cheias de emoção. Quando começou a trabalhar como auditor e a viajar pelo Brasil, teve a oportunidade de conhecer muito da vida interiorana e se aproximou ainda mais da cultura caipira. Perdeu o emprego de auditor e resolveu dar aulas de viola para ganhar a vida. Começou uma nova profissão. Deu tão certo que ele nunca mais parou. Lançou até livros didáticos para quem quer aprender viola.
E a orquestra surgiu justamente por causa dessas aulas. Na disciplina de prática de conjunto, que existe em todas as escolas de música, Rui começou a juntar vários alunos de viola e, um dia, foram tocar, despretensiosamente, em um pesqueiro. Os que ouviram gostaram tanto que eles começaram a se apresentar mais vezes, cada vez mais organizados, até virarem uma orquestra formalizada. Hoje, os músicos tocam por paixão, mas recebem cachê para isso. “Em 2001, começamos a cobrar pelas apresentações porque percebi que, para ter longevidade, a orquestra precisava se sustentar”, conta Rui.
Mas fazer parte da orquestra, para os músicos, não é apenas ganhar dinheiro. Além de fazerem o que gostam, eles se mantêm em contato com a sua própria história, a sua própria identidade. “Com a viola percebemos que mostramos ao nosso povo as suas verdadeiras raízes, suas origens, porque cantamos, nas músicas, os costumes de nossos pais, avós, bisavós e demais antepassados. As pessoas se identificam, se emocionam e muitos daqueles que antes nos assistiam hoje tocam conosco, fazem parte do time”. Rui lembra que um dos músicos da orquestra chorou quando o grupo interpretou a música Casa de Barro, que conta a história de um caboclo que saiu do campo para ganhar a vida na cidade. “A história de muitas das pessoas que fazem parte da orquestra é essa, de alguém que saiu do interior para ganhar a vida aqui. Essas pessoas vieram para trabalhar como proletários, na indústria e encontraram na viola uma forma de resgatar a sua história e cidadania”.
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| O maestro Rui Torneze mostra a xiloteca com madeiras que podem ser usadas na confeção de viola. Ela faz parte do Instituto São Gonçalo de Estudos Caipira |
(Por Maisa Infante. Matéria publicada na Revista do Tatuapé - Novembro/2011)


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