7.11.11

Ao som da viola

Com sede na Penha, Orquestra Paulistana de Viola Caipira quer divulgar o instrumento pelo País

A Orquestra Paulistana de Viola Caipira em ação
Em uma casa na Penha, o fogão de lenha é parte de um cenário que não tem muito a ver com a vida frenética das grandes cidades. É lá que, desde 2001, acontecem os ensaios e encontros da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, projeto tocado com afinco pelo maestro Rui Torneze, 48, um homem da cidade que se encantou com a cultura caipira e se tornou um nome importante no cenário da viola nacional. E o fogão a lenha é para o jantar que, todas as terças-feiras, é servido aos integrantes da orquestra logo depois do ensaio.

Composta por 50 integrantes, a orquestra viaja o Brasil com a missão de formar público para a viola caipira. “Hoje, não tem quem consuma a música de viola porque o pessoal não está acostumado a ouvir. É um produto tão refinado quanto a música erudita”, avalia Rui. Para isso, a orquestra usa um repertório misto, com grandes clássicos da música caipira entremeados por sons mais conhecidos como choro, fado, MPB, tango e música latino-americana, para seduzir o público.
A história dessa orquestra, que tem sua sede na Penha, mas recebe músicos da cidade toda e até do interior (há quem viaje de Cotia para a Zona Leste de São Paulo todas as terças-feiras para participar dos ensaios) está profundamente ligada à história de Rui Torneze com a música. Criado em uma família muito musical, o maestro cresceu ouvindo música erudita. “Minha família sempre foi muito humilde, mas com um gosto musical refinado. Minha nonna, mãe da minha mãe, colocava óperas italianas a todo volume no toca disco”, conta.
Foi depois de ouvir Pena Branca e Xavantinho pela primeira vez que Rui se encantou com as modas de viola e suas letras cheias de emoção. Quando começou a trabalhar como auditor e a viajar pelo Brasil, teve a oportunidade de conhecer muito da vida interiorana e se aproximou ainda mais da cultura caipira. Perdeu o emprego de auditor e resolveu dar aulas de viola para ganhar a vida. Começou uma nova profissão. Deu tão certo que ele nunca mais parou. Lançou até livros didáticos para quem quer aprender viola. 

E a orquestra surgiu justamente por causa dessas aulas. Na disciplina de prática de conjunto, que existe em todas as escolas de música, Rui começou a juntar vários alunos de viola e, um dia, foram tocar, despretensiosamente, em um pesqueiro. Os que ouviram gostaram tanto que eles começaram a se apresentar mais vezes, cada vez mais organizados, até virarem uma orquestra formalizada. Hoje, os músicos tocam por paixão, mas recebem cachê para isso. “Em 2001, começamos a cobrar pelas apresentações porque percebi que, para ter longevidade, a orquestra precisava se sustentar”, conta Rui.  
Mas fazer parte da orquestra, para os músicos, não é apenas ganhar dinheiro. Além de fazerem o que gostam, eles se mantêm em contato com a sua própria história, a sua própria identidade. “Com a viola percebemos que mostramos ao nosso povo as suas verdadeiras raízes, suas origens, porque cantamos, nas músicas, os costumes de nossos pais, avós, bisavós e demais antepassados. As pessoas se identificam, se emocionam e muitos daqueles que antes nos assistiam hoje tocam conosco, fazem parte do time”. Rui lembra que um dos músicos da orquestra chorou quando o grupo interpretou a música Casa de Barro, que conta a história de um caboclo que saiu do campo para ganhar a vida na cidade. “A história de muitas das pessoas que fazem parte da orquestra é essa, de alguém que saiu do interior para ganhar a vida aqui. Essas pessoas vieram para trabalhar como proletários, na indústria e encontraram na viola uma forma de resgatar a sua história e cidadania”.

O maestro Rui Torneze mostra a xiloteca com madeiras que podem ser usadas na confeção de viola. Ela faz parte do Instituto São Gonçalo de Estudos Caipira
Mas a casa da Penha não funciona apenas como lugar para ensaio da orquestra. Lá é, na verdade, o Instituto São Gonçalo de Estudos Caipira, que engloba, além da orquestra, uma escola de viola e um pequeno acervo, que ainda está em formação, sobre a cultura caipira. Há livros, discos, instrumentos e até uma xiloteca, com todos os tipos de madeira que podem ser utilizados na confecção de uma viola. E um dos orgulhos de Rui é, no meio de todo esse trabalho, conseguir formar novas orquestras de viola no País. Já são mais de 20 no estado de São Paulo, além de orquestras no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. A próxima será em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. E é ao lado do filho Lucas, 23, que ele segue criando redutos de viola caipira pelo Brasil afora. “Lucas é meu filho e meu companheiro. Desde os 10 anos ele segue junto a mim, como músico da orquestra. Então, nos incumbimos de abrir essas frentes de disseminação do instrumento, que ajuda a formar público e divulgar ainda mais a viola”. 
(Por Maisa Infante. Matéria publicada na Revista do Tatuapé - Novembro/2011)

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